Ontem eu perdi o sono

Sabe quando antes de dormir te vem mil coisas à cabeça e de repente todo aquele sono que pesava os olhos some de uma vez? O caso da menina estuprada por 30 homens ficou ecoando na minha cabeça e me jogou em alguns pesadelos, como eu me sentiria numa situação dessas? Como lidar com o nojo? Como eu veria o mundo depois disso? Será que algum dia eu me recuperaria do trauma?

Vivemos uma vida INTEIRA baseada em: “fecha essas pernas”, “você não está pensando em sair com essa saia, né?”, “olha que vestida desse jeito, você está pedindo pra fiquem te olhando”, “o seu namorado já te viu vestida com esse decote?”. Ouvimos TANTO esses tipos de comentário durante toda a nossa infância e adolescência que eles vão riscando a nossa cabeça como a tinta de uma tatuagem que marca a pele pra sempre.

A primeira vez que eu ouvi falar sobre feminismo eu pensei: “quanto drama! Quem elas estão querendo impressionar?”. Como eu era tola, como eu ERA tola. Quando eu percebi o quanto me foi imposto, privado e tirado de mim durante toda a minha vida só pelo fato d’eu ter nascido um mulher mas que eu posso SIM fazer alguma coisa pra mudar, foi como tirar uma venda dos olhos, foi como nascer de novo.

Como num passe de mágica eu passei a ver “azinimiga” como irmãs, percebi todo o potencial que eu tinha, que eu não precisava ter vergonha de mais da metade das coisas que eu fazia, que quando alguém perguntasse alguma coisa sobre a minha aparência eu poderia dizer: “eu me acho linda” e dizer isso sem pensar que estou me achando ou que sou pré-potente.

Mas só isso não é o suficiente. Eu vivo numa bolha onde eu tenho uma família que me ama, um namorado que me ama, me respeita e aprende comigo cada dia mais e trabalho num lugar onde as pessoas gostam de mim e me respeitam, isso não é realidade pra todAs.

Quantas meninas ao redor de todo o globo são abusadas sexualmente e/ou psicologicamente por seus familiares, por seu vizinhos ou por um simples desconhecido que achou que por ela estar usando uma roupa “provocante”, se sentiu no direito de violar o seu bem mais precioso?

A nossa luta é diária, é por mim, é por você, é para que algum dia não existam mais casos tão bárbaros e absurdos como o da nossa irmã que foi violentada e ridicularizada por tantos. Não lutamos para ser melhores que nenhum homem, queremos apenas duas coisas simples: IGUALDADE E RESPEITO.

A culpa nunca é da vítima.